
Rodrigo Prado | Goiânia, 11 de Agosto de 2026
Em uma época em que o eleitor está mais informado, conectado e exigente, evitar o confronto pode deixar de ser estratégia e passar a ser um problema político.
Daniel Vilela tem todo o direito legal de escolher dos debates dos quais pretende participar. Mas, politicamente, a história é outra.
Quem pretende governar Goiás precisa compreender que debate não é apenas um programa de televisão. É um instrumento da democracia. É o momento em que o candidato se coloca diante do eleitor, enfrenta o contraditório e apresenta suas ideias sem o controle absoluto do ambiente, das perguntas e das respostas.
Por isso, a decisão de Daniel Vilela, candidato do MDB ao Governo de Goiás, de não participar do primeiro debate desta eleição merece uma reflexão.
E aqui faço uma comparação que considero necessária:

Daniel não é Iris.
Iris tinha uma história que o eleitor conhecia
Em 2016, Iris Rezende também adotou a estratégia de não participar de diversos debates durante a disputa pela Prefeitura de Goiânia. Na época, justificava que o povo já conhecia seu trabalho.
E havia uma lógica nessa argumentação.
Iris tinha história.
Tinha décadas de vida pública. Foi vereador, deputado estadual, senador, ministro de estado, prefeito de Goiânia e governador de Goiás. Administrou a cidade e o Estado. Tinha obras, decisões, acertos, erros e uma trajetória que fazia parte da memória política dos goianos.
Iris podia dizer que o povo já o conhecia.
E conhecia.
O eleitor podia gostar ou não de Iris Rezende. Podia concordar ou discordar de suas decisões. Mas ninguém precisava perguntar quem era Iris Rezende ou qual era sua experiência administrativa.
Daniel está em outra situação

Não se trata de negar a trajetória política de Daniel Vilela. Ele foi vereador, deputado estadual, deputado federal, não conseguiu se reeleger a deputado federal e atualmente ocupa o cargo de governador de Goiás, por ter sido eleito como vice na chapa de Ronaldo Caiado, hoje pré-candidato a presidente do Brasil.
Mas existe uma diferença fundamental.
Daniel ainda não construiu uma trajetória própria de administração executiva comparável à de Iris Rezende, aliás, nem chega na canela do grande Iris.
E isso faz toda a diferença quando estamos falando de alguém que pretende comandar Goiás.
O eleitor precisa conhecer não apenas o político, mas o administrador.
Precisa saber como Daniel pretende governar, quais serão suas prioridades, como pretende enfrentar os problemas da saúde, da segurança, da educação e da infraestrutura.
Precisa saber como pretende conduzir a economia do Estado, gerar empregos e se relacionar com os municípios.
E, principalmente, precisa saber como ele reage quando é confrontado.
Porque governar não é conversar apenas com aliados.
Governar é enfrentar problemas, ouvir críticas, responder a adversários e tomar decisões sob pressão.
E o debate é uma pequena amostra disso.

O eleitor também mudou
Existe, porém, outro aspecto que não pode ser ignorado: o tempo mudou.
O eleitor de hoje vive em um ambiente político completamente diferente daquele de décadas atrás.
Estamos na era da informação instantânea, das redes sociais, dos vídeos curtos, das transmissões ao vivo, dos grupos de mensagens e do acesso praticamente ilimitado a informações sobre a vida pública dos candidatos.
O eleitor pode pesquisar uma declaração feita anos atrás, comparar propostas, conferir resultados, assistir a uma entrevista e, em poucos minutos, confrontar diferentes versões sobre o mesmo assunto.
É uma sociedade mais conectada e, em muitos aspectos, mais exigente com seus representantes.
Isso não significa que todo eleitor acompanhe política diariamente. Mas significa que o candidato não controla mais sozinho a narrativa sobre sua própria imagem.
E isso muda também a relação com os debates.
Uma pesquisa do Instituto Informa, divulgada em julho deste ano, mostrou que debates e entrevistas ao vivo aparecem como os conteúdos com maior potencial de chamar a atenção ou fazer o eleitor reconsiderar sua escolha: 53,3% dos entrevistados apontaram esses formatos.
Na era das redes sociais, portanto, o debate televisivo não necessariamente perdeu importância.
Ele ganhou uma nova dimensão.
Uma resposta dada em um debate pode circular durante dias nas redes.
Uma boa proposta pode virar vídeo.
Uma resposta ruim também.
E uma ausência também, principalmente.

A ausência também comunica
Esse é um ponto que Daniel Vilela e sua equipe precisam considerar.
Quando um candidato não comparece, ele não deixa simplesmente uma cadeira vazia no estúdio.
Ele produz uma mensagem.
Pode ser a mensagem que sua equipe pretende transmitir: estratégia, cautela ou preservação da liderança.
Mas também pode produzir uma interpretação que o candidato não controla.
Parte do eleitorado pode perguntar:
Por que ele não veio?
O que ele teria a dizer?
Quais propostas apresentaria?
Por que não quer enfrentar os adversários?
Existe algo que não quer responder?
É importante deixar claro: não estou afirmando que Daniel tenha algo a esconder.
Não há base para fazer essa acusação.
Mas, nos novos tempos, essa pode ser uma das interpretações produzidas pela ausência.
E política também é percepção.
O risco de subestimar o eleitor

Talvez Daniel esteja avaliando que, liderando as pesquisas, participar de um debate represente mais riscos do que benefícios.
É uma estratégia eleitoral legítima.
Mas existe um risco nessa estratégia: subestimar a exigência do eleitor contemporâneo.
O eleitor não quer apenas saber quem está liderando a pesquisa.
Quer saber por quê.
Quer conhecer o projeto.
Quer comparar.
Quer perguntar.
Quer confrontar.
E, sobretudo, quer sentir que sua escolha foi construída a partir de informação.
Outro levantamento recente, do PoderData/Aya, mostrou que 61% dos eleitores entrevistados disseram escolher seu candidato principalmente pelas propostas apresentadas.
Se propostas importam, por que não apresentá-las diante dos adversários?
Se existe confiança no projeto, por que não colocá-lo à prova?
Se existe segurança na capacidade de governar, por que não demonstrá-la diante do eleitor?
Daniel pode acabar sendo vítima da própria estratégia

Existe uma possibilidade que Daniel e sua equipe deveriam considerar.
Ao escolher não participar dos debates, o candidato pode estar tentando proteger uma liderança.
Mas, em uma eleição, aquilo que protege hoje pode custar caro amanhã.
O eleitor pode interpretar a ausência como arrogância.
Pode interpretar como excesso de confiança.
Pode entender que o candidato não considera necessário prestar contas.
Pode simplesmente concluir que gostaria de conhecê-lo melhor e não teve essa oportunidade.
E, em uma eleição, votos não pertencem a ninguém antes da apuração.
A liderança nas pesquisas é uma fotografia, não uma escritura.
Quem hoje aparece na frente pode amanhã ser questionado pelo eleitor.
Não estou dizendo que Daniel será prejudicado por faltar aos debates. Seria impossível afirmar isso antecipadamente.
Mas é perfeitamente legítimo perguntar se a estratégia de evitar o confronto pode produzir um efeito contrário ao desejado.
Daniel não é Iris
E aqui voltamos a Iris Rezende.
Iris podia dizer, em 2016, que o povo já conhecia seu trabalho.
Daniel não pode simplesmente partir da mesma premissa.
Iris carregava uma história política de décadas.
Daniel ainda está construindo a sua.
E uma história política não se constrói apenas ocupando cargos.
Constrói-se também enfrentando o contraditório, prestando contas, defendendo ideias e mostrando ao eleitor, olho no olho, por que merece governar.
O debate pertence ao eleitor
Daniel Vilela tem o direito legal de não participar de um debate.
Mas o eleitor tem o direito de perguntar por que ele não foi.
E nós, jornalistas, temos o dever de fazer essa pergunta.
Porque não estamos discutindo apenas a presença de um candidato em um programa de televisão.
Estamos discutindo que tipo de relação o futuro governador pretende estabelecer com o eleitor.
Uma relação em que o candidato fala apenas quando escolhe o ambiente?
Ou uma relação em que ele aceita o contraditório, responde às perguntas difíceis e apresenta seu projeto diante de todos?
Os tempos mudaram.
A informação mudou.
O eleitor mudou.
E talvez a política também precise mudar.
Na pós-modernidade da informação, não basta pedir confiança. É preciso estar disposto a explicar por que ela deve ser concedida.
Daniel Vilela pode acreditar que faltar aos debates é uma boa estratégia para preservar sua liderança.
O eleitor, porém, pode enxergar de outra maneira.
Pode considerar a ausência um sinal de que o candidato não quer se expor.
Pode entender que ele não está dando a importância necessária à oportunidade de apresentar suas propostas.
E pode, inclusive, levar essa percepção para a cabine de votação.
Não porque alguém tenha dito que ele deve ser rejeitado.
Mas porque cada eleitor é livre para interpretar as atitudes de um candidato e decidir, a partir delas, se ele merece ou não o seu voto.
No final, a questão é simples:
Daniel não é Iris.
Iris tinha uma história consolidada que o eleitor conhecia.
Daniel ainda precisa mostrar, com mais clareza, qual história pretende escrever à frente de Goiás.
E, para isso, talvez não exista palco mais democrático do que aquele em que todos os candidatos sentam diante das câmeras e respondem às mesmas perguntas.
Porque o debate não pertence aos candidatos.
O debate pertence ao eleitor.
E quando um candidato escolhe não participar, ele não perde apenas uma oportunidade de falar.
Ele abre mão de uma oportunidade de ser conhecido.
E, na política dos novos tempos, ser conhecido, ser questionado e ser comparado pode ser justamente o que define a escolha do eleitor.











