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Dois pesos, duas medidas? A mudança partidária e a régua seletiva da política

Rodrigo Prado I Goiânia, 23 de Fevereiro de 2026

Nos últimos dias, tenho acompanhado as críticas direcionadas à advogada Ana Paula Rezende por ter deixado o Movimento Democrático Brasileiro e se filiado ao Partido Liberal em Goiás.

Alguns classificaram a decisão como “infidelidade partidária”. Outros falaram em rompimento com a própria história. Mas eu me pergunto: estamos mesmo debatendo coerência política ou estamos aplicando uma régua seletiva?

A mudança de partido é algo comum — quase rotineiro — na política brasileira. O governador Ronaldo Caiado construiu sua trajetória no antigo Partido da Frente Liberal, que se transformou em Democratas e, posteriormente, participou da federação que resultou no União Brasil. Mais recentemente, Caiado deixou a legenda e se filiou ao Partido Social Democrático, presidido por Gilberto Kassab. Isso o torna infiel? Traidor? Incoerente?

Ou simplesmente um político que se movimenta dentro das dinâmicas partidárias permitidas e comuns no sistema brasileiro? Se a mudança partidária é um direito legítimo — e é — então precisamos ter coerência na análise.

É claro que toda decisão política pode e deve ser debatida. Questionar estratégia, alinhamento ideológico ou timing faz parte do jogo democrático. O que me parece inadequado é transformar uma escolha partidária em julgamento moral seletivo. E aqui levanto uma reflexão necessária: haveria também um componente de misoginia em parte dessas críticas?

Mulheres na política enfrentam um grau de cobrança diferente. Quando um homem muda de partido, é visto como articulador, estrategista, pragmático. Quando uma mulher faz o mesmo movimento, frequentemente é rotulada como ingrata ou desleal.

Não afirmo que toda crítica tenha esse viés. Mas ignorar que ele pode existir é desconsiderar a realidade histórica da participação feminina na política.

Além disso, há um ponto que considero central: o legado de Iris Rezende não pertence a uma sigla. Não é patrimônio partidário. É patrimônio histórico e popular de Goiás. Nenhum partido pode reivindicar exclusividade sobre esse legado. Ele transcende legendas.

Se Ana Paula entende que seu caminho político, neste momento, passa por outra sigla, isso é uma decisão estratégica e pessoal. O tempo e o eleitorado julgarão.

O que não me parece justo é aplicar critérios distintos para situações semelhantes. Se mudar de partido é aceitável dentro do jogo político, que seja aceitável para todos. Se é condenável, que a condenação seja uniforme. O que não cabe na democracia é dois pesos e duas medidas.

Talvez este episódio revele menos sobre a escolha dela e mais sobre como parte do ambiente político reage quando mulheres assumem protagonismo.

E isso, sim, merece reflexão.

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